QUARTZO FUMADO · Capítulo 7

Capítulo VII

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Mikhail acordou do seu sono sem ter noção donde estava. O quarto estava mergulhado na escuridão e, ao perceber que alguém dormia a seu lado, isso levou-o para a ideia de que estaria em casa a dormir ao lado de Svetlana. Porém, apesar do negrume, aquele cenário não coincidia com as noites no seu quarto, onde nunca estava assim tão escuro, não existia uma luzinha vermelha chata na parede em frente, nem outra verde perto do tecto que piscava de tempos a tempos. Ensonado, o cérebro processou a informação e trouxe-lhe à memória a véspera e a recordação donde dormia.
Tudo estava em silêncio, apenas a respiração melodiosa quase inaudível da mulher a seu lado se fazia ouvir. Virou-se na direcção oposta, atraído pelo piscar ténue do seu telemóvel. Esticou o braço para lhe pegar e tocou no ecrã, iluminando-o e provocando uma pequena onda de brilho pelo quarto. Tinha uma mensagem nova. Svetlana respondera à sua e desejava-lhe um bom dia com muitas juras de amor. Mikhail olhou para a hora a que a mensagem chegara, fora cinco minutos antes, eram cinco da manhã em Portugal.
Ekaterina rodou na cama, continuando a dormir profundamente. Iluminados pelo brilho no ecrã, Mikhail observou a irmã sem conseguir evitar a mágoa pela certeza de como o seu futuro era efémero. Acariciou lhe o rosto com ternura, fazendo despontar um sorriso na bela adormecida. Beijou-lhe a testa com carinho, adorava a sua irmã mais velha, amava-a como a mais ninguém e nem queria pensar no que seria a sua vida quando ela morresse. Teve vontade de chorar, tal como já chorara tantas e tantas vezes nos últimos tempos. Virou-se para a mesinha de cabeceira e devolveu o telemóvel ao seu lugar anterior. Perdera o sono e ficou a olhar para o escuro.
As memórias jorraram na sua mente, qual cascata de imagens a fluir numa corrente imparável. Deveria dormir, mas os pensamentos não o deixavam relaxar. Sem saber explicar porquê, as lembranças fizeram-no retornar ao tempo em que a irmã lhe apresentara Tiago. Ela estava tão feliz… Mikhail percebeu logo como aquele namoro era sério e não se enganou, como nunca se enganava em nada no que respeitava à irmã. Nunca lhe vira esse brilho de felicidade nos olhos, não o sabia descrever, mas era um brilho único, talvez só mesmo ele o conseguisse identificar. Não mais o vira nos olhos de Ekaterina. Sorriu para o negrume, vendo os olhos azuis da irmã na sua mente, ninguém olhava para ele como ela, com uma expressão de amor genuíno incondicional, protector e ao mesmo tempo vulnerável, confiável, seguro… Nunca a vira olhar assim para mais ninguém. Perguntou-se como seriam os seus próprios olhos, quando a observava. Haveria de lhe perguntar o que lhe diziam os olhos dele.
Virou-se para a irmã sem a ver na escuridão, somente o vulto que se elevava nas sombras. A respiração tranquila embalava-o. Teve saudades do frio russo, saudades de quando eles ficavam em casa na adolescência, enrolados num edredão, no quarto dele ou no dela, a ver um filme. Voltou a sentir a mágoa da perda, a futura perda quando a irmã deixasse para sempre este mundo. Afastou a sensação, repescando a lembrança.
Mikhail e Ekaterina sempre foram muito afectuosos entre si. Os pais torciam o nariz e consideravam estupidamente inadequado os carinhos que partilhavam. Desde crianças que se beijavam nos lábios, mas a mãe começou a condená-los por isso quando ele entrou na puberdade. Que pensaria a mãe que eles iriam fazer? Ekaterina, muito mais madura nos seus quinze anos, convenceu-o a deixarem de fazê-lo para não aborrecer a senhora e garantiu-lhe que isso não mudava nada naquele amor fraternal que só existia entre eles. Na verdade, Mikhail percebeu que Ekaterina já teria uma outra noção da vida, pois namorava e beijos na boca não era coisa para irmãos.
Ekaterina tornou a rodar na cama, agora oferecendo-lhe as costas.
As namoradas tinham ciúmes da irmã. Houve uma que lhe disse “tocas-lhes demasiado”, só porque ele tinha sempre a mão no braço ou no ombro de Ekaterina enquanto falava com ela. Também percebia nos namorados dela algum desconforto com a sua presença. Quando estavam sozinhos, os irmãos riam-se com isso e gozavam pela estupidez que era, eles e elas, sentirem ciúmes da relação deles. Aquilo que Mikhail e Ekaterina partilhavam era único, nenhum ser humano poderia substituir um na vida do outro. Contudo, a realidade é que nenhuma relação de Mikhail durou o suficiente para se tornar um compromisso, até conhecer Svetlana.
A noiva substituiu a irmã na sua cabeça. Era completamente apaixonado pela advogada. Sem querer, a mente foi invadida pelo filme que fora a noite anterior, o sexo intenso. Suspirou para o vazio. Bolas, tinham-no feito três vezes, esfomeados um pelo outro. Svetlana era uma amante fenomenal e uma companheira fabulosa. E tal como ninguém substituiria Ekaterina na sua vida, Mikhail concluiu que não existiria ninguém por quem trocasse a sua noiva. Foi uma certeza tão intensa que adormeceu.


A claridade ténue despontou por entre a singela abertura dos cortinados, insuficiente para causar mossa a quem queria dormir. Ekaterina acordou naturalmente, abrindo os olhos devagar, virada para as janelas escondidas, consciente donde estava. O lençol fora parar ao fundo da cama, o silêncio era geral não fosse o roncar baixinho atrás de si. Ela esticou a mão para o telemóvel e deu um toque no ecrã para ver as horas, eram oito da manhã em Portugal. Virou-se na cama para observar o irmão. Mikhail dormia profundamente, de barriga para cima com o peito musculado a subir e a descer devagarinho. Ekaterina nem percebeu que sorria, sentia-se feliz. A vida não era perfeita, não esquecera que tinha os dias contados mesmo não sabendo quantos, mas iria impedir que as coisas tristes lhe ensombrassem a felicidade por cumprir um sonho e estar a fazê lo com o irmão, a pessoa que mais amava no mundo.
A notícia do cancro derrubara-a, tentara escondê-lo, mas derrubara-a. Lutou para se reerguer e não deixar que o marido tivesse noção do impacto, quando lhe contou. Tiago mostrou-se solidário e ela sentiu uma ligeira tristeza por constatar que o conseguira enganar, ele não percebera como estava afectada. Quando contou ao irmão… Foi ele que a tentou enganar, mostrando que acreditava que ela encaixara bem a fatalidade, só que Ekaterina leu no olhar do irmão que fracassara, Mikhail sabia perfeitamente o que ela estava a sentir e sentia-se grata por isso. A seguir, a separação de Tiago, nova cacetada na vida, afinal o marido não era o homem que ela julgara e dispensara-a sem pensar duas vezes, quando lhe deu abertura para isso. E depois, quem lá estava para lhe amparar a queda? Mikhail, o irmão.
Com cuidado, Ekaterina colocou a mão no braço dele sem o acordar. Sabia como ele sofreria com a sua morte, não era difícil percebê lo, bastar-lhe-ia pensar o que sentiria ela se visse o irmão morrer. Ele tentava esconder-lhe o sofrimento, mas aqueles olhos azuis nunca a conseguiram enganar, não seria agora. A forma como ele sempre a olhava provocava lhe um calor no coração, Mikhail não olhava assim para ninguém, nem para Svetlana. Sentia-se sempre protegida junto dele. Riu-se para ninguém, recordando que nem sempre fora assim.
Ekaterina pensou nos tempos de menina em que o irmão era um bebé, adorava ficar a vê-lo dormir no berço e que a mãe lhe deixasse pegar lhe. Quando Mikhail foi para a sua escola era um rapazinho franzino. Os mais velhos gostavam de meter-se com ele, talvez para a provocar a ela. Ekaterina tornava-se uma leoa feroz se alguém se atrevesse a tocar no irmão.
A respiração tranquila dele tinha o condão de a tranquilizar. Olhou para o rosto adormecido, a boca entreaberta. Sem saber porquê, recordou os tempos em que trocavam beijos fraternais nos lábios. Porque haviam deixado de o fazer? Ah… a mãe. Acariciou-lhe o braço com uma pontada de culpa, pois não fora de facto a mãe a culpada. Ekaterina tinha quinze anos, namorava e já trocava beijos bem profundos com os rapazes. Era uma rapariga madura, mas não tão madura que tivesse tido consciência de como estava a ser estúpida por confundir esses beijos com os que inocentemente o irmão trocava consigo. Naquela altura, sentira se desconfortável e agora recriminava-se por isso. Quase como se pedisse desculpa, beijou-lhe o ombro.
Mikhail não acordou, mas rodou na cama e ficou virado para ela. Desperta, Ekaterina ficou a contemplar o rosto do irmão. Ninguém a completava tão bem espiritualmente como ele. Tornou a deixar-se levar nas recordações, as tardes de neve em São Petersburgo em que os manos adolescentes se enrolavam juntos num edredão a ver filmes. Ele tinha a pachorra de ver comédias românticas com ela e Ekaterina compensava-o com a partilha de filmes de acção, cheios de tiros e pancada. É claro que também havia longas-metragens e séries que viam com o mesmo interesse. Quem lhe dera poder retornar a essa época, um tempo em que a vida parecia abrir-lhe todas as portas e não havia um tumor a matá-la.
Apesar de dormir profundamente, Mikhail levantou o braço e colocou-o sobre ela, puxando-a para si. Ekaterina deixou-se ir. A mão dele deslizou para a sua anca e apertou-lhe a nádega.
Acho que me estás a confundir com alguém, maninho.
Riu-se. Mikhail era o homem mais carinhoso que conhecia. Porém, também sabia como ele ficaria envergonhado se soubesse que estava a apalpar a irmã. Cuidadosamente, puxou-lhe a mão e depositou-a devagarinho na perna dele.
— Mika! — sussurrou. — Mika! — O tom melodioso e arrastado da voz dela acordou-o. Mikhail abriu os olhos devagarinho. — Bom dia, dorminhoco.
Mikhail sorriu e voltou a cerrar as pálpebras, questionando com a voz arrastada:
— Que horas são?
— É quase meio-dia. — respondeu divertida.
— Mentirosa! — ripostou ele, sorrido e mantendo os olhos fechados.
Ekaterina elevou-se na cama e baixou o rosto sobre o dele, espetando-lhe um beijo na bochecha.
— Vamos a levantar.
Entusiasmada, saltou da cama e avançou para os cortinados, abrindo-os com puxões vigorosos. A claridade e os raios solares invadiram o quarto numa explosão de luz.
— Foda-se, Eka! — protestou ele, tapando o rosto com a almofada dela.
— Tento na língua, menino. — advertiu, fingindo-se ofendida.
Mikhail não disse nada e manteve-se escondido por baixo das almofadas.
Ekaterina contornou a cama e baixou-se junto da sua mala para escolher a roupa. Olhou para a janela, o dia estava lindo e iria tornar se bem quente. Retirou umas cuecas e escolheu uma t-shirt azul e uns corsários encarnados. Por fim, recuperou o sutiã da véspera e seguiu para a casa de banho. Antes de fechar a porta, disse:
— Vou tomar um duche. Não te deixes dormir.
Mikhail ripostou com um som concordante. Envolto na penumbra dos travesseiros, ouviu o som da água a correr, calculou que entre o duche e arranjar-se, Ekaterina demoraria o suficiente para…
— Então?
A voz aborrecida da irmã acordou-o com força e quase o fez saltar. Merda, adormecera por completo. Abriu os olhos estremunhado e viu Ekaterina com as mãos nas ancas, vestida com a t-shirt azul e os corsários vermelhos com bolsos.
— Desculpa! — pediu, erguendo-se da cama ensonado.
Ela atravessou o quarto até às janelas e sentou-se na cadeira.
Mikhail arrastou-se até à sua mala e procurou a roupa. Puxou uns boxers debaixo da roupa maior. Que haveria de vestir? Pelo calor que se antevia, o melhor seria ir só com os boxers para a rua. Como obviamente isso não era hipótese, teria de escolher algo.
— Queres que te escolha a roupa? — interrogou Ekaterina, vendo a hesitação dele, debruçada para o chão a apertar as sapatilhas brancas.
— Eu já trato disso. — Mikhail desistiu da decisão e seguiu para a casa de banho. — Não demoro.
E não demorou. O duche foi rápido, barbeou-se com a máquina, penteou o cabelo e perfumou-se.
Ekaterina aguardava em pé, diante das janelas a apreciar a paisagem. Mikhail viu-a de costas, orgulhoso por a irmã ser uma das mulheres mais bonitas que conhecia. Svetlana tivera razão na véspera, ela estava mais magra, mas conservava todas as curvas que deixariam qualquer homem caidinho. Ekaterina deu pela sua saída sem se mexer, parecia perdida em pensamentos. Ele voltou à mala e decidiu-se por uma t-shirt branca com o símbolo do Zenit e umas calças de ganga preta. Vestiu se. A irmã parecia uma estátua.
— Estás bem, Eka?
— Sim. Estou a apreciar a paisagem.
Mikhail aproximou-se e parou atrás dela. Abraçou-a e beijou-lhe a nuca junto da fita que lhe prendia os longos cabelos louros num rabo de cavalo. Ela apertou os braços dele sobre a sua cintura.
— É uma vista magnífica.
— E estranhamente familiar, Mika.
— Ainda a pensar na sensação de ontem?
Ekaterina libertou-se do abraço e voltou-se para ele.
— Não foi estranho? — Mikhail anuiu. — Era como se já aqui estivesse estado.
— Nunca fizeste escala neste aeroporto? — sugeriu ele num tom brincalhão.
— Não gozes. Tu também o sentiste. E tu mal sais de São Petersburgo.
— Fui às Maldivas contigo.
— Não fizemos escala aqui. — retorquiu desdenhosa.
Mikhail riu e desvalorizou a situação.
— A chegada, o cansaço… Era noite, as luzes… Sei lá, Eka. Qualquer coisa pareceu às nossas cabecinhas cansadas que isto nos era familiar. — Olhou para o exterior. — Olha, estou a ver a paisagem lá fora e nada me parece familiar.
Ekaterina abanou a cabeça e afastou-se. Pegou numa pequena malinha que colocou a tiracolo contendo o seu passaporte, a carteira e o telemóvel.
— Podes guardar o meu? — pediu ele, entregando-lhe o passaporte.
— Sou tua mãe? — atirou, provocadora, fingindo estar aborrecida. — Para guardar as tuas coisas?
— És minha irmã, vai dar ao mesmo. — respondeu gozão. — Vá lá, já tenho a carteira e o telemóvel nos bolsos. Não me cabe o passaporte.
Ekaterina sorriu e piscou-lhe o olho, segurando no livrinho e guardando-o na malinha.



O mapa da rede das linhas do Metropolitano de Lisboa não era tão complexo, nem tão grande, como o metro de São Petersburgo, mas para quem não conhecia, como era o caso dos irmãos, descodificar para onde queriam ir não era fácil. Mikhail nem tentava, estava tudo escrito em português. Ekaterina fizera pesquisa e, pelo menos, entendia o que as palavras queriam dizer. Mesmo assim, socorreu-se dos apontamentos no telemóvel.
A Estação Oriente tinha um fluxo humano bem maior que na véspera, quando chegaram a meio da noite. Havia lojas abertas e uma espécie de feira do livro entre as escadas rolantes. Eles estavam um piso mais abaixo, a olhar para o mapa da cidade e para as linhas vermelha, amarela, verde e azul. Ekaterina partilhara os planos com o irmão para aquele dia durante o pequeno-almoço tomado de forma apressada no hotel. Queria aproveitar o dia ao máximo.
— Estamos aqui. — apontou com o dedo indicador direito. — E queremos ir para aqui. — O indicador esquerdo estava sobre a Estação do Rossio. — Vamos ter de mudar de linha… — O dedo direito avançou pela linha vermelha. — …aqui.
— Almevda?
— Alameda, Mika. — corrigiu com o arranhar do sotaque russo.
— Que merda de língua.
— Não sejas assim, não é tão difícil quanto pensas. Aliás, fica sabendo que o russo e o português são idiomas parecidos.
Mikhail olhou-a incrédulo.
— Pois… Devem ser, devem.
Ultrapassaram os torniquetes passando os seus Lisboa Card pelos leitores. Desceram as escadas para a mesma plataforma por onde haviam chegado na véspera.
— Sao Sebástiao, Eka?
— Sim, São Sebastião. — confirmou rindo-se.
Apesar do sotaque russo pronunciado, Ekaterina conseguia proferir relativamente bem a fonética portuguesa.
As composições não vinham cheias, mas tinham mais pessoas. Eles destacavam-se entre os locais, um homem com quase um metro e noventa de altura, louro de olhos azuis, porte semelhante a um armário acompanhado por uma loura de olhos azuis, cerca de vinte centímetros mais baixa, expressão sedutora e elegante como uma garça não eram o quadro mais comum entre portugueses. Mikhail reparou nos olhares curiosos, mas percebia que muitos se deviam à beleza da irmã.
— Saímos aqui, Mika. — informou quando a voz gravada anunciou “próxima estação: Alameda”.
As portas abriram. Muitas pessoas saíram com eles, outras tantas entraram.
— E agora, Eka? — perguntou ao mesmo tempo que caminhavam pela plataforma.
— Seguimos as indicações.
A linha vermelha e a linha azul não ficam logo ao lado uma da outra. Eles tiveram de passar os torniquetes, como quem vai sair da estação, prosseguir por uma área comercial parecida com um túnel e desembocar no outro sector da estação. Voltaram a usar os cartões nos torniquetes e desceram pelo lado que lhes indicava como destino o Cais do Sodré.
O Sol incidia com força na cidade, mas a manhã não se apresentava mais quente que o normal para a época. Mikhail e Ekaterina subiram as escadas e deram por si numa pequena praça, talvez pequena para os padrões russos deles. A Praça da Figueira tinha um mercado de rua a funcionar, as pessoas circulavam a diferentes velocidades e a presença de turistas era evidente. Os autocarros sucediam-se, tal como pequenos veículos turísticos com um condutor e dois ou três passageiros. Num dos lados da praça, uma linha de táxis aguardava clientes. Um rapaz com um panfleto na mão interpelou-os, falando em inglês. Os irmãos dificilmente escapariam à imagem de turistas, daí o rapaz surgir convidando-os para passeios turísticos pela cidade. Ekaterina declinou e o rapaz, talvez olhando para a envergadura do homem ao lado dela, não insistiu.
Mikhail observou a praça, os edifícios que nada tinham a ver com os da sua cidade. Viu o castelo lá no alto, a bandeira de Portugal a dançar ao sabor da brisa.
— Vamos por aqui, Mika.
Ekaterina segurava o telemóvel com a aplicação do Google Maps aberta. Conduziu o irmão pela Rua do Amparo e foram dar à Praça D. Pedro IV, mais conhecida por Rossio. Atravessaram a estrada, aproveitando que o semáforo estava verde para os peões, e pararam perto da estátua do rei que lhe dava nome.
— Estamos na zona histórica, Mika. Esta é uma das praças principais da cidade. — Olhou em redor, fechou a app e clicou no ícone da máquina fotográfica. — Tiras uma selfie de nós? Tens o braço mais comprido.
Mikhail colocou o braço esquerdo sobre os ombros da irmã, esticou o direito e enquadrou os dois rostos de óculos-escuros com a fachada do Teatro D. Maria II atrás e clicou no ecrã.
— A nossa primeira foto da viagem. — legendou, recuperando o telemóvel para fazer mais algumas capturas.
Desceram o Rossio para sudoeste numa passada turística calma. Ekaterina revelava-se encantada por ali estar, todo o ambiente à sua volta lhe oferecia uma sensação de conforto, a estranha sensação de estar em casa. Mikhail sentia-se um mero viajante a conhecer um sítio novo. Ela tivera muito tempo para planear a estadia, sabia onde queria ir e por onde passar, o Google Maps era somente um auxiliar para não se perderem. Tornaram a atravessar a rua, desta feita para a extremidade oposta da praça.
O guia virtual no telemóvel indicara-lhe que o café de estilo antigo que se lhes deparou era um lugar emblemático da cidade. Escolheram uma mesa na esplanada do Café Nicola e sentaram-se. A sombra providenciada pelos guarda-sóis atenuava o calor, uma temperatura amena para os lisboetas e quente para os russos.
Um empregado de mesa acercou-se deles. Habituado à presença de turistas, nem tentou adivinhar se saberiam falar a língua de Camões e recebeu-os em inglês. Ekaterina tentou a sua sorte em português:
— Doís cáfes, pór favor.
Viu a surpresa no rosto do empregado, o qual sorriu gentilmente e anuiu.
— O que é que disseste, Eka?
— Pedi dois cafés.
— Parecia que estavas a tossir. — provocou-a.
Ekaterina atirou-lhe um sorriso torcido.
— Engraçadinho.
O funcionário regressou com os cafés e depositou-os sobre a mesa. Ekaterina pegou na sua chávena, enquanto Mikhail abria o pacote de açúcar.
— Bebe-se melhor sem açúcar, Mika. — avisou com humor. — Ainda não largaste o açúcar no café?
Mikhail abanou a cabeça e despejou o pacote para a chávena.
Ekaterina bebeu o seu, era mais forte que aquele a que estava habituada.
— Hum… É diferente do que bebemos na Rússia. Mas, é saboroso.
Mikhail bebericou o seu, franziu o rosto e devolveu a chávena ao pires.
— Que se passa? Não gostas.
— É amargo. — respondeu, pegando no açúcar da irmã.
— Tu não vais… — Antes de acabar a frase, Ekaterina viu o irmão despejar o segundo pacotinho no café. — Isso não te faz bem, Mika.
— Importas-te de deixar a médica em casa?
— É para teu bem.
Mikhail olhou-a sério.
— Preocupamo-nos com merdas e depois há outras coisas que nos matam. — Viu a irmã perceber ao que se referia, o que lhe roubou alguma da alegria do dia. — Desculpa, Eka. Sou uma besta.
— Esquece, Mika. — Voltou a sorrir. — Não deixas de ter uma certa razão. Eu é que era a saudável. E eu é que me fodi.
— Tento na língua, menina! — advertiu, imitando a irmã.
Ambos soltaram uma gargalhada divertida.
O passeio continuou pela via pedonal da Rua do Carmo até às escadas adjacentes ao Elevador de Santa Justa.
— Subimos?
Mikhail assentiu, olhando para a fila de turistas que esperavam.
Os cartões para andar nos transportes públicos da cidade também lhes permitiam subir no elevador sem custos adicionais. A estrutura em ferro fundido erigida no início do século XX era mais um ponto turístico, construído para facilitar a subida da colina aos habitantes, mas que actualmente só servia para deleite dos visitantes.
— Isto é seguro, Eka?
— Não sejas parvo.
As portas do ascensor foram abertas por dentro. Um homem fardado agradeceu aos turistas que saíram e cumprimentou os que se preparavam para entrar, verificando os bilhetes que lhe iam mostrando. Mikhail encostou-se a um dos cantos e Ekaterina encostou-se a ele, deixando-se envolver no abraço distraído do irmão. O homem tornou a fechar as portas e pressionou uma alavanca que deu início à subida numa toada lenta.
Mikhail parecia tenso e Ekaterina notou que ele estava realmente com receio. Rodou para colocar o braço à volta da cintura dele e deu lhe um beijo na face, dizendo:
— Não tenhas medo.
— Achas? — A pergunta veio com um tom quase indignado. — Medo, eu. Puff…
O elevador imobilizou-se no topo. O senhor voltou a abrir as portas para os passageiros saírem. Quatro pessoas, igualmente com ar de turistas, aguardavam para entrar no lado oposto por onde eles abandonavam o transporte.
O vento soprava mais forte, por ali, atravessando a rede sobre os parapeitos feitos no mesmo ferro fundido que impediam que algum maluco se atirasse dali. Ekaterina parou junto da rede e fez algumas fotografias. Mikhail reparou na escada em caracol com um sinal azul e uma seta branca por onde alguns dos companheiros de subida já escalavam.
— Podemos subir mais, Eka.
— Não tens medo? — questionou, rindo-se.
— Depois de ti. — indicou, apontando para os degraus.
A escada era apertada, largura suficiente para uma pessoa, daí que existisse outra idêntica para descer. O acesso levava-os ao topo da torre, mesmo por cima donde estaria o mecanismo por onde rolavam os cabos que movimentavam o elevador. Havia mesas e um pequeno quiosque que vendia bebidas e bolos. Ekaterina encostou-se ao corrimão, encantada com a vista, a Baixa Pombalina, o Rossio, o Arco da Rua Augusta, o castelo na outra colina, o rio Tejo…
— Adoro esta cidade!
— Só por isto, Eka?
— Não te sei explicar, Mika. — confidenciou. — Sinto-me bem aqui.
O trânsito ecoava lá em baixo, buzinas, uma sirene ao longe, outra mais perto. Os sons da cidade eram melodiosos para os ouvidos dela. Eles caminharam vagarosamente pelo terraço, observando a paisagem pelos quatro cantos do miradouro. O Sol quente não queimava, parecia mais abraçar a pele de Ekaterina, recebendo-a naquele regresso… Qual regresso? Ela não sabia explicar, apenas sentir.
Após inúmeros disparos com a câmara do telemóvel, entregou o aparelho ao irmão e pediu:
— Mais uma nossa?
Ele fez-lhe a vontade com todo o gosto.
Desceram pela escada correcta. Não repetiram a viagem de elevador. Ao invés, atravessaram a ponte idêntica à torre que se erguia sobre a Rua do Carmo. Ekaterina parou a meio e fez algumas fotos lá para baixo.
Ao chegar ao outro lado, depararam com um monumento em ruínas. Mikhail ficou a olhar para o edifício com curiosidade. Ekaterina respondeu-lhe sem que ele tivesse de fazer qualquer pergunta:
— É um antigo convento. Ficou destruído durante um terrível terramoto há quase trezentos anos.
— E ainda não o restauraram? — interrogou incrédulo.
Ekaterina riu-se.
— Acho que a ideia é mantê-lo assim. É uma atracção turística.
Caminharam de mão dada ao longo das ruínas, vindo sair no Largo do Carmo. Ekaterina viu o chafariz e pediu ao irmão que lhe tirasse uma foto ali.
— Estou a ver que vais afogar o Instagram em fotos, esta noite. — disse-lhe, devolvendo o telemóvel.
Ekaterina consultou os apontamentos e o guia da cidade nas apps. Tornou a abrir o Google Maps e centrou a sua localização para perceber por onde deveriam ir.
A manhã avançava tranquila e animada, Mikhail congratulava-se por ver a felicidade nas expressões da irmã. Passearam pelos passeios de mão dada, os dedos entrelaçados, conversando e rindo.
A Brasileira, outra pastelaria histórica de Lisboa, deparou-se diante deles quando contornaram a esquina para o Largo do Chiado. Ekaterina quis replicar a foto que já vira em vários guias de viagem da cidade, uma foto sentada na esplanada com a estátua do poeta Fernando Pessoa.
— Mais uma para o Instagram.
— Cala-te, Mika!
Riram-se e ela saltou-lhe para o pescoço, fustigando-lhe a face com beijos.
— Estou tão feliz por aqui estar. — confessou. — E feliz por partilhar isto contigo, maninho.
Mikhail elevou-a o suficiente para os seus pés perderem o contacto com o chão, o que a fez soltar um protesto fingido. Quando a devolveu ao chão, beijou-lhe a testa.
— Adoro-te, Eka!
— É impossível não me adorarem. — ripostou, representando um papel de mulher altiva com ares snobs que nada tinham a ver consigo. Soltou uma gargalhada divertida. — Também te adoro, maninho!

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Próxima publicação 09/10/2026 às 21:00 Capítulo 14 · Capítulo XIV

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