Capítulo VIII
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O Mercado da Ribeira foi o local escolhido para o almoço. Ekaterina lera nas sugestões para os visitantes que era um lugar catita para fazer refeições. Seguindo o itinerário que o Maps lhe dava, desceram a Rua do Alecrim até à Praça Duque da Terceira e, antes do Cais do Sodré, continuaram pela Avenida 24 de Julho até ao edifício carismático defronte da grande estação ferroviária e terminal de barcos do Cais do Sodré. A entrada era semelhante a um mercado de bairro, mas atravessando para a zona de refeições, os balcões de oferta alimentar multiplicavam-se por inúmeras escolhas. O centro, aquilo que um dia teria sido o recinto de vendedores, era agora ocupado por mesas altas e bancos onde os clientes se acomodavam a saborear as refeições compradas. O ar moderno contrastava com a área mais rústica da entrada.
Mikhail e Ekaterina encontraram dois lugares vagos numa das linhas de mesas. Comeram um hambúrguer com batatas fritas e beberam cerveja portuguesa, mais uma novidade. Nem pensaram estar tão esfomeados até sentirem o cheiro a comida no interior. Mikhail abstraía se dos diálogos à sua volta, a maior parte eram naquele idioma incompreensível. Contudo, Ekaterina fazia o contrário, absorvia todas as falas que conseguisse, registando os sotaques para mais tarde treinar e corrigir a forma como falava, quando se aventurava no português.
O tempo que permaneceram ali foi o suficiente para saciar a fome. Quando regressaram à rua, atravessaram a avenida e entraram na estação ferroviária só para conhecer o sector mais antigo.
O Sol começava a mostrar-se bem forte e intensificava o céu azul ausente de nuvens. Os irmãos contornaram a Praça Duque da Terceira, sempre de mão dada, o gesto era automático e quase nem se apercebiam que o faziam. Passaram pelo Cais da Ribeira das Naus vendo um dos barcos que cruzam o rio a chegar e a anunciar a sua presença. Um pouco mais à frente, muitas pessoas ocupavam uma esplanada virada para o rio. E, a seguir, alcançaram a Avenida da Ribeira das Naus.
Ekaterina parou para mais umas fotos. A antiga doca fora transformada numa espécie de praia fluvial citadina com um passeio largo por onde se caminhava paralelo ao Tejo. A rampa em escadinha convidava a parar, foi o que eles fizeram.
Sentaram-se nos degraus, suficientemente perto sem que a água lhes tocasse. Ekaterina dobrou os joelhos e abraçou as pernas com o olhar perdido na água. Mikhail, a seu lado, esticou as suas e apoiou as mãos nas pedras quentes.
— Isto é lindo! — afirmou Ekaterina. — Será que quem aqui vive tem noção da sorte que tem?
— Já pensaste que muitos turistas colocarão essa questão sobre São Petersburgo, quando a visitam?
Ela olhou para ele.
— Queres dizer que valorizamos mais o que não temos, não é?
— Não sei se será o caso. Concordo que isto é bonito, mas não trocava a minha cidade por esta.
Ekaterina ponderou a questão, concluindo que também não se via a viver noutra cidade que não fosse São Petersburgo. De imediato, o seu rosto ensombrou-se, recordando-se que essas questões não se colocavam a pessoas como ela, cujo futuro era efémero.
— Estás bem?
Ela não forçou o sorriso para o descansar, limitando-se a anuir.
— Parece que estamos na praia. — partilhou para se abstrair do pensamento.
— É tal e qual as Maldivas. — concordou Mikhail irónico.
Ekaterina deu-lhe uma palmada no braço.
— Parvo. Não é uma praia dessas.
— Foram umas belas férias.
— Tu foste um amor, Mika. Pediste aos pais que o teu presente de formatura fosse uma viagem para lá porque sabias que eu queria lá ir.
— O teu namorado na altura não achou muita graça.
— Sim, ele queria ir comigo. — recordou ela. — Quando lhe expliquei que o presente era teu, indignou-se por quereres levar a irmã, em vez de uma namorada.
— Nem tinha namorada nessa época.
— E o meu namoro terminou no regresso. — concluiu sem qualquer mágoa. — Nem era bem um namoro. Era mais uma amizade colorida. — Riu-se. — Dávamos umas quecas.
— Poupa-me os pormenores, Eka.
Ekaterina tornou a encará-lo, a expressão era de desafio.
— Que foi? Achas que a tua irmã não faz sexo?
— Sei que sim, mas não preciso de saber pormenores.
— Na verdade, desde que o Tiago saiu de casa que eu não sei o que isso é.
Mikhail esticou a cabeça e começou a olhar em redor. Ela ficou tensa, julgando que algo se passava. Ele voltou a olhar para ela, encolheu os ombros e disse:
— Há por aí muitos Tiagos para matares saudades.
— Estúpido!
Ele riu-se e tentou abraçá-la, mas Ekaterina afastou o irmão.
— Tens uma gracinha…
— Vá lá, era a brincar.
Tentou abraçá-la outra vez e ela deixou.
— Gostei muito das férias nas Maldivas, Eka.
— Eu também.
O vento voltou a soprar forte, mas acalmou de imediato. Outro barco zarpou do cais. Um cargueiro vinha a entrar no rio, rumo ao porto da cidade. A nascente, dois enormes navios de cruzeiro permaneciam atracados na margem. Ao vê-los, Ekaterina disse:
— Nunca fiz um cruzeiro. Gostava de o ter feito.
Atrás deles, alguns carros circularam em ambas as direcções. Alguém apitou. Um grupo de jovens caminhava no passeio a falar alto, contando piadas.
— A vida pode ser tão simples, quando nos permitimos a isso.
— Eu desperdicei oito anos da minha.
— Não vejas isso assim, Eka.
— Não me vou enganar, Mika. Há coisas que teria feito se não estivesse com o Tiago. Certamente, teria viajado mais, quem sabe não teria feito o tal cruzeiro.
— As coisas aconteceram como tinham de acontecer, Eka.
— É difícil aceitar isso dessa forma, quando se está no fim da vida. — confessou, observando a água a embater devagar nas pedras.
Ficaram em silêncio, um silêncio prolongado, uma ausência de diálogo de alguns minutos. Pareciam hipnotizados pela corrente fluvial tranquila. Ekaterina olhou para o irmão e sentiu um aperto no peito ao ver uma linha húmida no seu rosto, abaixo da lente escura. Não falou, mas agarrou-lhe a mão e acariciou-lhe os dedos.
— Continuamos?
Mikhail anuiu.
Ergueram-se da escadaria já com a água mais perto. Não deram as mãos, Mikhail colocou o braço sobres os ombros da irmã e Ekaterina envolveu-lhe a cintura com o seu.
— Ora aí está uma praça mais imponente, Eka.
Os irmãos tinham caminhado até ao Cais das Colunas e agora observavam a Praça do Comércio de costas voltadas para o rio.
A área desenhava um quadrado perfeito por onde muitas pessoas caminhavam em todas as direcções. Em volta, os edifícios amarelos contornavam-na em três lados, somente a sul não havia construções, permitindo a visão do rio. No centro, a estátua de outro rei da História do país, D. José I a cavalo. Havia ruas a nascente e poente, mas só veículos autorizados poderiam passar por aí. O trânsito fluía entre eles e a praça.
Após mais uma foto às colunas onde há muito não atracavam embarcações, eles aguardaram junto da larga passadeira no asfalto até que o semáforo lhes autorizasse a travessia. As extremidades dos edifícios eram finalizadas por duas torres quadrangulares da altura dos restantes. Todos os pisos térreos eram compostos por arcadas e muitas serviam de espaço a esplanadas de vários bares e restaurantes. Os turistas fervilhavam por ali e a cacofonia de vozes era grande.
Mikhail e Ekaterina atravessaram a praça para norte, direitos ao Arco da Rua Augusta, mais um lugar listado nos apontamentos dela para visitar. Atravessaram a estrada nas passadeiras, na ponta oposta por onde haviam entrado, evitando os autocarros, os eléctricos e os táxis. Procuraram a entrada para visitar o Arco e encontram a porta para a bilheteira depois de passarem por baixo daquela espécie de Arco do Triunfo.
Mikhail percebeu o diálogo com a funcionária do balcão porque, desta vez, Ekaterina não se aventurou a falar português. Simpática, e vendo que eles eram turistas, questionou-os se teriam o Lisboa Card. Isso valeu-lhes a oferta dos bilhetes.
A vista no topo era magnífica. Haveria certamente miradouros com uma amplitude maior de horizonte e mais altos, mas aquele era especial por oferecer uma vista total da praça. Para além disso, a imponência das estátuas de Glória a coroar o Génio e o Valor metia respeito. O Sol a bater nas águas do rio faziam-no brilhar forte naquele ângulo. O calor intenso era rebatido a espaços pelo vento lá em cima. Ekaterina colocou se entre os braços esticados do irmão e mais algumas selfies foram feitas para o álbum da viagem.
Quando regressaram à rua, continuaram para norte. A Rua Augusta era pedonal e eles avançaram por entre dezenas e dezenas de pessoas. Havia muitas lojas, mas algumas já não funcionavam e uma ou outra pareciam abandonadas. Viram artistas de rua a tentar ganhar a vida, tocando, cantando, dançando ou representando em troca de uns euros. Ekaterina deixou moedas a todos. Aquela era uma das ruas mais circuladas na Baixa, fosse por turistas ou pelos habitantes. A oferta de esplanadas era significativa e muito do espaço entre o Arco e o Rossio era ocupado por mesas cobertas por guarda-sóis.
— Regressámos ao Rossio, Mika. — informou quando atravessaram a passadeira da Rua da Betesga. — Cansado?
— Não.
— Eu confesso que estou. Que me dizes a voltarmos ao hotel?
Ele sorriu-lhe e anuiu.
A densidade de pessoas era muito maior nas composições, nem faziam ideia de que àquela hora já muitas pessoas saiam dos empregos e regressavam a casa nos transportes públicos. No primeiro trajecto nem conseguiram lugar para se sentarem, mas Mikhail encostou-se ao lado da porta que não abria e Ekaterina apoiou-se nele e no seu abraço. No segundo percurso, a densidade humana não diminuiu.
O Sol brilhava intenso, mas as sombras já cobriam o grande passeio na saída sul da Estação Oriente. Sem terem essa intenção, eles repetiram o caminho da véspera até ao hotel, agora cruzando-se com mais gente.
Enquanto subiam no elevador do hotel, Mikhail consultou o telemóvel para ver se tinha mensagens.
— Novidades da Lana, Mika?
Ele abanou a cabeça.
O quarto estava escuro, parecia uma regra do pessoal que vinha arrumar os quartos, deixar os cortinados fechados. Ekaterina avançou pelo quarto, direita a eles, e abriu-os para ver a tarde solarenga lá fora. Tudo estava arrumado e as camas imaculadas como na véspera. O ar condicionado ligado mantinha a temperatura num nível ideal.
— São nove horas em São Petersburgo. — calculou Mikhail. — A Lana já deve estar em casa. Vou ligar-lhe.
— Eu vou tomar um duche. Dá-lhe um beijo meu.
Mikhail dedilhou o ecrã. Atrás de si, Ekaterina vasculhou algo na mala e fechou-se na casa de banho. Ele clicou no ícone de chamar, por baixo do nome da noiva, e ficou a olhar para a rua ao mesmo tempo que ouvia o sinal.
— Olá, querido!
— Olá, meu amor!
— Como estás?
— Bem. E tu?
— Cansada. O dia foi estafante, tive duas reuniões com clientes e outra de trabalho com a equipa de um novo processo. Cheguei há pouco. — Svetlana suspirou, mas depois animou o tom da sua voz. — E vocês? Que tal o primeiro dia?
— Foi bom. Também cansativo, mas por outras razões.
— Quem me dera cansados desses, Mikhail. E a Ekaterina? Está a gostar?
— Está a adorar. Manda um beijo para ti.
— Como é que ela está? Tem-se sentido bem?
Mikhail ouviu o som da água a correr na casa de banho.
— Felizmente sim, não tem tido sintomas do… Tem estado bem.
— Ainda bem, meu amor.
— Esta viagem está a ser boa para ela. Dá para ver como está feliz.
— Ela merece, amor. Ambos sabemos que não tem tido uns últimos tempos fáceis.
Ele ficou em silêncio, ensombrado pela lembrança do sofrimento da irmã. Olhou para o exterior, para a coloração amarela a fugir para o laranja da claridade do Sol a bater na margem oposta. Aquele dia estava a terminar, menos um dia do que restava da vida da irmã.
O tempo não pára, esgota-se!
— Mikhail?
Ele percebeu que se perdera no pensamento, sendo despertado pela voz da noiva.
— Mikhail, estás bem?
— Sim, sim. Desculpa. Estava aqui a olhar pela janela…
— Não me digas que estavas a fazer olhinhos a uma latina?!
Ele riu-se cansado.
— Estou no décimo quarto andar, Lana. Quase nem vejo as pessoas.
— Estou a brincar contigo. — ouviu-a dizer, sabendo que não era inteiramente verdade. — Olha, vou jantar. Trocamos umas mensagens mais logo?
— Sim, claro.
— Dá um beijinho à minha cunhadinha. Amo-te, Mikhail!
— Eu também te amo, Lana.
Desligou e pousou o telemóvel na mesinha de apoio. Sentou-se na cadeira e continuou a olhar para o exterior, para o céu. Será que os que partem ganham uma estrelinha no céu? Ele sabia que não, sabia o que eram as estrelas e não se tratava de defuntos. Mikhail e Ekaterina vinham de uma família religiosa praticante, mas eles limitavam-se à crença que lhes fora induzida ao longo do crescimento e não praticavam nada. Ele não entrava numa igreja há muito tempo e só iria ter um casamento religioso por insistência dos pais e da noiva. Contudo, naquele momento, gostaria de ter mais fé, algo a que se agarrar. Porém, como poderia ele compreender que um ser superior supostamente justo lhe fosse levar uma pessoa adorável como a irmã?
A água calou-se. Ele voltou-se para o interior do quarto. O tempo parecia ter parado, mas era mera ilusão. O tempo não pára, esgota-se! Pensou no dia, no passeio, na felicidade da irmã. Seriam momentos como aqueles e tantos outros que teriam de fazer um esforço hercúleo para o ajudar a suportar a partida da irmã. Evitou pensar nisso, não queria ficar triste. Foda-se, haveria tempo para tristezas.
Todo o silêncio foi estilhaçado pelo som ruidoso do secador. Ekaterina estava a secar o cabelo. Mikhail levantou-se da cadeira e procurou o comando da televisão. Ligou-a. Os primeiros canais eram todos falados naquela língua roufenha. Continuou a fazer zapping até surgirem os primeiros canais de notícias falados em inglês. Deixou ficar num qualquer, sentou-se no colchão para ver a novidades e perdeu o interesse no segundo seguinte.
O som irritante do secador sumiu-se. Ekaterina saiu da casa de banho envolta num robe turco e com o cabelo em desalinho depois de ter sido violentamente soprado pelo aparelho. Ela sorriu-lhe numa expressão de “olha lá a minha figura”. Mikhail devolveu-lhe o sorriso, notando que não estava maquilhada, o que lhe dava uma beleza natural divinal.
— Queres aproveitar? — sugeriu, apontando para a divisão donde viera. — Ele assentiu. — Podemos jantar no hotel. O que achas?
— Pode ser.
— Estás bem, Mika?
A resposta foi um beijo na face da irmã.
Mikhail aceitou a sugestão de Ekaterina e foi tomar um duche rápido, lavar-se do cansaço do passeio pelas ruas da cidade. Não queria pensar na doença da irmã, mas o raio do assunto teimava em não lhe sair da mente. Teve vontade de chorar. E chorou.
Ekaterina vestira um vestido de algodão sem mangas, verde garrafa, com um decote circular junto do pescoço e uma bainha curta que lhe realçava as magníficas pernas acentuadas pelos sapatos de salto alto. Voltara a maquilhar-se e penteara o cabelo para um dos lados, prendendo-o com pequenos ganchos. Quando a viu, Mikhail disse:
— Vamos a alguma festa? Pareço um pelintra ao teu lado.
— Não sejas tolo, Mika.
— Estás linda.
— Tu também.
Mikhail encolheu os ombros, a imagem dele não mudava muito, t shirt e calças de ganga ou chinos. Sentou-se na cadeira e calçou as mesmas sapatilhas que o acompanharam ao longo do dia.
O restaurante não tinha muitos hóspedes. Ou era cedo ou estes preferiam sair do hotel e comer noutro lugar. O espaço era acolher, mesas quadradas diante de uma linha de sofás arredondada e complementada no número de lugares por cadeiras elegantes. No centro da sala havia mais mesas posicionadas, maiores ou menores consoante a necessidade e cercadas de cadeiras. As cores variavam entre os castanhos e os brancos. O menu era digno do chef responsável pelo espaço. O serviço de mesa era assegurado por jovens impecavelmente fardadas e a esbanjar simpatia. Uma delas recebeu-os num inglês perfeito e conduziu-os a uma das mesas com sofás, junto das janelas com vista para o Parque das Nações.
Ekaterina sentou-se no sofá, ficando de costas para a janela, dispensando a vista do entardecer. Ainda era de dia. Na véspera, àquela hora, eles ainda voam para Lisboa. Mikhail sentou-se na cadeira, em frente à irmã. Ela pediu uma salada, ele um prato composto por esparguete e camarão.
— Que achaste do nosso primeiro dia, Mika? — questionou, retirando o telemóvel da malinha.
— Quente.
— Só isso? — Ekaterina franziu o rosto com um sorriso torcido. Clicou no ecrã do aparelho e virou-o para o irmão. — Ficámos tão bem.
Mikhail viu umas das fotos de ambos.
— Só por esse sorriso, Eka, já valeu a pena ter vindo.
Duas outras funcionárias aproximaram-se da mesa. Serviram lhes uns aperitivos e petiscos para a espera. Ekaterina abraçou a sala com o olhar e comentou:
— Não há muita gente.
— Isto não é mau. — Mikhail pegara num pedaço de massa crocante e mergulhara-o num molho verde. — É saboroso.
— Se não gostares, peço para te trazerem açúcar.
Mikhail encaixou a piada e ambos sorriram felizes.
Comeram deliciados com as escolhas que tinham feito. O vinho sugerido pela rapariga também mereceu boa nota, um tinto do Douro. Saborearam a refeição trocando comentários acerca do dia um de férias. Não quiseram sobremesa nem café.
A jovem que mais vezes se acercara deles trouxe-lhes a conta. Ekaterina assinou para que fosse adicionada à sua conta no hotel. Muito simpática, convidou-os a subir ao bar no rooftop e desfrutar da vista e de uma bebida. Ekaterina perguntou-lhe o nome, queria deixar um elogio sobre ela, quando terminasse a estadia. Mikhail deixou uma nota de vinte euros por baixo do papel assinado.
A noite amena convidava a desfrutar da esplanada no topo do edifício. Eles sentaram-se numa mesa para dois junto ao parapeito de vidro com vista para o Oceanário e para a Marina. Aqui a clientela era maior. Um balcão atravessava a parede ao fundo, onde trabalhavam dois barmen. Dois rapazes na casa dos vinte anos cuidavam do serviço de mesas. Ekaterina brincava com a palhinha mergulhada numa água tónica com limão, enquanto Mikhail bebia pequenos goles do seu vodka.
Ekaterina atraía os olhares masculinos, mas nada mais que uma olhadela disfarçada para a loura de pernas esguias sentada na companhia de um tipo que parecia saído de um filme de espiões do tempo da antiga União Soviética. Ela era lindíssima, facilmente obteria pretendente se estivesse sozinha e quisesse. Com o irmão tomado como marido, os olhares eram fugazes e fugidios.
Curiosamente, Mikhail arrebatou a atenção de uma mulher sentada no bar e na companhia de uma amiga. A troca de olhares não deixava dúvidas do interesse dela. Mais explícito, só se colocasse umas letras em néon sobre a cabeça a piscar “quero-te”.
— Parece que ganhei uma fã. — partilhou Mikhail.
— Onde?
— Balcão. Segundo banco a contar da esquerda.
Disfarçadamente, Ekaterina voltou-se e viu a mulher exótica de tez morena, cabelo aos caracóis e vestido fresco comprido sem costas. Os seus olhares encontraram-se.
— Ups… Acho que me topou. — disse ela, voltando à posição inicial.
Mikhail voltou a olhar para a mulher. Ela piscou-lhe o olho, borrifando-se para que a loura fosse esposa dele.
— É gira. — sussurrou.
— Não precisas de falar baixinho, Mika. — lembrou-lhe com divertimento. — Não ouço ninguém a falar russo. — Piscou-lhe o olho. — Porque não tentas a sorte?
— Estás parva? Sou casado.
— Ainda não és.
— É como se fosse. — protestou pouco convicto. Os olhos da mulher não descolavam dele. — Além disso, se calhar nem fala inglês.
— Há coisas em que a língua não é importante, Mika.
— Nunca faria isso à Lana.
— Se tu não contares, eu também não conto.
— Qual é a tua, Eka?
Ekaterina riu-se.
— Estou a brincar contigo.
Mikhail retribuiu o sorriso e segurou-lhe a mão com carinho, ao mesmo tempo que olhava para a desconhecida. Foi o suficiente para a outra perceber que ali perderia o seu tempo.
Terminaram as bebidas, vendo mais pessoas a chegar. Levantaram-se e caminharam de braço dado, abandonando o recinto.
— Não podemos ver um canal que se perceba?
— Eu entendo o que estão a dizer. — respondeu Ekaterina sentada na cama e encostada à cabeceira com o lençol pela cintura. Vestira o pijama e a elefanta parecia ver televisão com ela. — Além disso, tu estás aí a trocar mensagens com a tua noiva.
Mikhail estava a seu lado na cama, igualmente com o lençol pela cintura, e com o telemóvel na mão. Abanou a cabeça e não insistiu. Digitou uma despedida com juras de amor para Svetlana que já estava atrasada para dormir.
Ekaterina segurava o comando da televisão e assistia a uma telenovela num dos canais generalistas portugueses. Também havia telenovelas na Rússia, mas ela nunca lhes achara grande piada. E aquela começara a ver para continuar a desfrutar da língua portuguesa.
— Não percebo o que te fascina nisso, Eka.
— É giro. Tu também irias achar engraçado, se percebesses. — Olhou para ele. — Se quiseres, posso fazer-te um resumo.
Mikhail sacudiu um pelo do peito nu e recusou:
— Deixa estar. Dispenso.
Ekaterina continuou a ver as imagens na televisão, enquanto o irmão aproveitou para navegar na Internet com o telemóvel, lendo as notícias.
Ao fim de alguns minutos, Mikhail olhou para o lado e viu que a irmã adormecera. Largou o telemóvel na mesa de cabeceira e virou-se para ela com o intuito de lhe dizer que fossem dormir. Decidiu despertá la com um beijo na bochecha.
Ekaterina reagiu inconsciente ao movimento dele na cama. Por instinto, rodou a cabeça no momento em que a boca dele se aproximava. Em resultado, o beijo na face resultou num beijo no cantinho da boca dela.
— Ui… Desculpa. — pediu ele, cara a cara com ela.
Ekaterina riu-se ensonada. Olhou para ele e, sem dizer nada e sem pensar, beijou-lhe os lábios. Foi um mero toque nos lábios dele.
— Desculpa, Mika! — O rosto envergonhado desviou o olhar. — Agi por impulso. Deu-me saudade dos nossos beijos de miúdos.
— Não tem mal nenhum, Eka. — retorquiu o irmão, encarando aquilo com toda a naturalidade. Riu-se divertido. — E a nossa mãe não está aqui para nos advertir.
Ela retribuiu o sorriso divertido.
— Há mais de vinte anos que não trocávamos um beijinho assim.
— Como te digo, não tem mal nenhum.
Ekaterina franziu o rosto e olhou-o com uma expressão torcida.
— Não sei se a tua noiva pensaria o mesmo.
— A minha noiva também não está aqui.
— Tu és um amor, Mika. A Lana tem muita sorte.
— Não exageres, Eka. Vamos dormir?
A irmã anuiu e ambos deslizaram na cama, estendendo-se no colchão, virados um para o outro.
Mikhail aproximou-se para trocarem um beijo na face como faziam nas despedidas ou, como na noite anterior, de “boas noites”.
— Pode ser um beijo de boa noite do tempo de criança? — pediu ela.
Mikhail sorriu e o beijo suave e rápido foi trocado nos lábios do outro.
— Dorme bem, Eka!
— Dorme bem, Mika!
Ele rodou na cama, esticou o braço para o candeeiro e mergulhou o quarto na escuridão. Cansados pelo primeiro dia de passeio em Lisboa, os irmãos adormeceram de imediato.
Mikhail e Ekaterina encontraram dois lugares vagos numa das linhas de mesas. Comeram um hambúrguer com batatas fritas e beberam cerveja portuguesa, mais uma novidade. Nem pensaram estar tão esfomeados até sentirem o cheiro a comida no interior. Mikhail abstraía se dos diálogos à sua volta, a maior parte eram naquele idioma incompreensível. Contudo, Ekaterina fazia o contrário, absorvia todas as falas que conseguisse, registando os sotaques para mais tarde treinar e corrigir a forma como falava, quando se aventurava no português.
O tempo que permaneceram ali foi o suficiente para saciar a fome. Quando regressaram à rua, atravessaram a avenida e entraram na estação ferroviária só para conhecer o sector mais antigo.
O Sol começava a mostrar-se bem forte e intensificava o céu azul ausente de nuvens. Os irmãos contornaram a Praça Duque da Terceira, sempre de mão dada, o gesto era automático e quase nem se apercebiam que o faziam. Passaram pelo Cais da Ribeira das Naus vendo um dos barcos que cruzam o rio a chegar e a anunciar a sua presença. Um pouco mais à frente, muitas pessoas ocupavam uma esplanada virada para o rio. E, a seguir, alcançaram a Avenida da Ribeira das Naus.
Ekaterina parou para mais umas fotos. A antiga doca fora transformada numa espécie de praia fluvial citadina com um passeio largo por onde se caminhava paralelo ao Tejo. A rampa em escadinha convidava a parar, foi o que eles fizeram.
Sentaram-se nos degraus, suficientemente perto sem que a água lhes tocasse. Ekaterina dobrou os joelhos e abraçou as pernas com o olhar perdido na água. Mikhail, a seu lado, esticou as suas e apoiou as mãos nas pedras quentes.
— Isto é lindo! — afirmou Ekaterina. — Será que quem aqui vive tem noção da sorte que tem?
— Já pensaste que muitos turistas colocarão essa questão sobre São Petersburgo, quando a visitam?
Ela olhou para ele.
— Queres dizer que valorizamos mais o que não temos, não é?
— Não sei se será o caso. Concordo que isto é bonito, mas não trocava a minha cidade por esta.
Ekaterina ponderou a questão, concluindo que também não se via a viver noutra cidade que não fosse São Petersburgo. De imediato, o seu rosto ensombrou-se, recordando-se que essas questões não se colocavam a pessoas como ela, cujo futuro era efémero.
— Estás bem?
Ela não forçou o sorriso para o descansar, limitando-se a anuir.
— Parece que estamos na praia. — partilhou para se abstrair do pensamento.
— É tal e qual as Maldivas. — concordou Mikhail irónico.
Ekaterina deu-lhe uma palmada no braço.
— Parvo. Não é uma praia dessas.
— Foram umas belas férias.
— Tu foste um amor, Mika. Pediste aos pais que o teu presente de formatura fosse uma viagem para lá porque sabias que eu queria lá ir.
— O teu namorado na altura não achou muita graça.
— Sim, ele queria ir comigo. — recordou ela. — Quando lhe expliquei que o presente era teu, indignou-se por quereres levar a irmã, em vez de uma namorada.
— Nem tinha namorada nessa época.
— E o meu namoro terminou no regresso. — concluiu sem qualquer mágoa. — Nem era bem um namoro. Era mais uma amizade colorida. — Riu-se. — Dávamos umas quecas.
— Poupa-me os pormenores, Eka.
Ekaterina tornou a encará-lo, a expressão era de desafio.
— Que foi? Achas que a tua irmã não faz sexo?
— Sei que sim, mas não preciso de saber pormenores.
— Na verdade, desde que o Tiago saiu de casa que eu não sei o que isso é.
Mikhail esticou a cabeça e começou a olhar em redor. Ela ficou tensa, julgando que algo se passava. Ele voltou a olhar para ela, encolheu os ombros e disse:
— Há por aí muitos Tiagos para matares saudades.
— Estúpido!
Ele riu-se e tentou abraçá-la, mas Ekaterina afastou o irmão.
— Tens uma gracinha…
— Vá lá, era a brincar.
Tentou abraçá-la outra vez e ela deixou.
— Gostei muito das férias nas Maldivas, Eka.
— Eu também.
O vento voltou a soprar forte, mas acalmou de imediato. Outro barco zarpou do cais. Um cargueiro vinha a entrar no rio, rumo ao porto da cidade. A nascente, dois enormes navios de cruzeiro permaneciam atracados na margem. Ao vê-los, Ekaterina disse:
— Nunca fiz um cruzeiro. Gostava de o ter feito.
Atrás deles, alguns carros circularam em ambas as direcções. Alguém apitou. Um grupo de jovens caminhava no passeio a falar alto, contando piadas.
— A vida pode ser tão simples, quando nos permitimos a isso.
— Eu desperdicei oito anos da minha.
— Não vejas isso assim, Eka.
— Não me vou enganar, Mika. Há coisas que teria feito se não estivesse com o Tiago. Certamente, teria viajado mais, quem sabe não teria feito o tal cruzeiro.
— As coisas aconteceram como tinham de acontecer, Eka.
— É difícil aceitar isso dessa forma, quando se está no fim da vida. — confessou, observando a água a embater devagar nas pedras.
Ficaram em silêncio, um silêncio prolongado, uma ausência de diálogo de alguns minutos. Pareciam hipnotizados pela corrente fluvial tranquila. Ekaterina olhou para o irmão e sentiu um aperto no peito ao ver uma linha húmida no seu rosto, abaixo da lente escura. Não falou, mas agarrou-lhe a mão e acariciou-lhe os dedos.
— Continuamos?
Mikhail anuiu.
Ergueram-se da escadaria já com a água mais perto. Não deram as mãos, Mikhail colocou o braço sobres os ombros da irmã e Ekaterina envolveu-lhe a cintura com o seu.
— Ora aí está uma praça mais imponente, Eka.
Os irmãos tinham caminhado até ao Cais das Colunas e agora observavam a Praça do Comércio de costas voltadas para o rio.
A área desenhava um quadrado perfeito por onde muitas pessoas caminhavam em todas as direcções. Em volta, os edifícios amarelos contornavam-na em três lados, somente a sul não havia construções, permitindo a visão do rio. No centro, a estátua de outro rei da História do país, D. José I a cavalo. Havia ruas a nascente e poente, mas só veículos autorizados poderiam passar por aí. O trânsito fluía entre eles e a praça.
Após mais uma foto às colunas onde há muito não atracavam embarcações, eles aguardaram junto da larga passadeira no asfalto até que o semáforo lhes autorizasse a travessia. As extremidades dos edifícios eram finalizadas por duas torres quadrangulares da altura dos restantes. Todos os pisos térreos eram compostos por arcadas e muitas serviam de espaço a esplanadas de vários bares e restaurantes. Os turistas fervilhavam por ali e a cacofonia de vozes era grande.
Mikhail e Ekaterina atravessaram a praça para norte, direitos ao Arco da Rua Augusta, mais um lugar listado nos apontamentos dela para visitar. Atravessaram a estrada nas passadeiras, na ponta oposta por onde haviam entrado, evitando os autocarros, os eléctricos e os táxis. Procuraram a entrada para visitar o Arco e encontram a porta para a bilheteira depois de passarem por baixo daquela espécie de Arco do Triunfo.
Mikhail percebeu o diálogo com a funcionária do balcão porque, desta vez, Ekaterina não se aventurou a falar português. Simpática, e vendo que eles eram turistas, questionou-os se teriam o Lisboa Card. Isso valeu-lhes a oferta dos bilhetes.
A vista no topo era magnífica. Haveria certamente miradouros com uma amplitude maior de horizonte e mais altos, mas aquele era especial por oferecer uma vista total da praça. Para além disso, a imponência das estátuas de Glória a coroar o Génio e o Valor metia respeito. O Sol a bater nas águas do rio faziam-no brilhar forte naquele ângulo. O calor intenso era rebatido a espaços pelo vento lá em cima. Ekaterina colocou se entre os braços esticados do irmão e mais algumas selfies foram feitas para o álbum da viagem.
Quando regressaram à rua, continuaram para norte. A Rua Augusta era pedonal e eles avançaram por entre dezenas e dezenas de pessoas. Havia muitas lojas, mas algumas já não funcionavam e uma ou outra pareciam abandonadas. Viram artistas de rua a tentar ganhar a vida, tocando, cantando, dançando ou representando em troca de uns euros. Ekaterina deixou moedas a todos. Aquela era uma das ruas mais circuladas na Baixa, fosse por turistas ou pelos habitantes. A oferta de esplanadas era significativa e muito do espaço entre o Arco e o Rossio era ocupado por mesas cobertas por guarda-sóis.
— Regressámos ao Rossio, Mika. — informou quando atravessaram a passadeira da Rua da Betesga. — Cansado?
— Não.
— Eu confesso que estou. Que me dizes a voltarmos ao hotel?
Ele sorriu-lhe e anuiu.
A densidade de pessoas era muito maior nas composições, nem faziam ideia de que àquela hora já muitas pessoas saiam dos empregos e regressavam a casa nos transportes públicos. No primeiro trajecto nem conseguiram lugar para se sentarem, mas Mikhail encostou-se ao lado da porta que não abria e Ekaterina apoiou-se nele e no seu abraço. No segundo percurso, a densidade humana não diminuiu.
O Sol brilhava intenso, mas as sombras já cobriam o grande passeio na saída sul da Estação Oriente. Sem terem essa intenção, eles repetiram o caminho da véspera até ao hotel, agora cruzando-se com mais gente.
Enquanto subiam no elevador do hotel, Mikhail consultou o telemóvel para ver se tinha mensagens.
— Novidades da Lana, Mika?
Ele abanou a cabeça.
O quarto estava escuro, parecia uma regra do pessoal que vinha arrumar os quartos, deixar os cortinados fechados. Ekaterina avançou pelo quarto, direita a eles, e abriu-os para ver a tarde solarenga lá fora. Tudo estava arrumado e as camas imaculadas como na véspera. O ar condicionado ligado mantinha a temperatura num nível ideal.
— São nove horas em São Petersburgo. — calculou Mikhail. — A Lana já deve estar em casa. Vou ligar-lhe.
— Eu vou tomar um duche. Dá-lhe um beijo meu.
Mikhail dedilhou o ecrã. Atrás de si, Ekaterina vasculhou algo na mala e fechou-se na casa de banho. Ele clicou no ícone de chamar, por baixo do nome da noiva, e ficou a olhar para a rua ao mesmo tempo que ouvia o sinal.
— Olá, querido!
— Olá, meu amor!
— Como estás?
— Bem. E tu?
— Cansada. O dia foi estafante, tive duas reuniões com clientes e outra de trabalho com a equipa de um novo processo. Cheguei há pouco. — Svetlana suspirou, mas depois animou o tom da sua voz. — E vocês? Que tal o primeiro dia?
— Foi bom. Também cansativo, mas por outras razões.
— Quem me dera cansados desses, Mikhail. E a Ekaterina? Está a gostar?
— Está a adorar. Manda um beijo para ti.
— Como é que ela está? Tem-se sentido bem?
Mikhail ouviu o som da água a correr na casa de banho.
— Felizmente sim, não tem tido sintomas do… Tem estado bem.
— Ainda bem, meu amor.
— Esta viagem está a ser boa para ela. Dá para ver como está feliz.
— Ela merece, amor. Ambos sabemos que não tem tido uns últimos tempos fáceis.
Ele ficou em silêncio, ensombrado pela lembrança do sofrimento da irmã. Olhou para o exterior, para a coloração amarela a fugir para o laranja da claridade do Sol a bater na margem oposta. Aquele dia estava a terminar, menos um dia do que restava da vida da irmã.
O tempo não pára, esgota-se!
— Mikhail?
Ele percebeu que se perdera no pensamento, sendo despertado pela voz da noiva.
— Mikhail, estás bem?
— Sim, sim. Desculpa. Estava aqui a olhar pela janela…
— Não me digas que estavas a fazer olhinhos a uma latina?!
Ele riu-se cansado.
— Estou no décimo quarto andar, Lana. Quase nem vejo as pessoas.
— Estou a brincar contigo. — ouviu-a dizer, sabendo que não era inteiramente verdade. — Olha, vou jantar. Trocamos umas mensagens mais logo?
— Sim, claro.
— Dá um beijinho à minha cunhadinha. Amo-te, Mikhail!
— Eu também te amo, Lana.
Desligou e pousou o telemóvel na mesinha de apoio. Sentou-se na cadeira e continuou a olhar para o exterior, para o céu. Será que os que partem ganham uma estrelinha no céu? Ele sabia que não, sabia o que eram as estrelas e não se tratava de defuntos. Mikhail e Ekaterina vinham de uma família religiosa praticante, mas eles limitavam-se à crença que lhes fora induzida ao longo do crescimento e não praticavam nada. Ele não entrava numa igreja há muito tempo e só iria ter um casamento religioso por insistência dos pais e da noiva. Contudo, naquele momento, gostaria de ter mais fé, algo a que se agarrar. Porém, como poderia ele compreender que um ser superior supostamente justo lhe fosse levar uma pessoa adorável como a irmã?
A água calou-se. Ele voltou-se para o interior do quarto. O tempo parecia ter parado, mas era mera ilusão. O tempo não pára, esgota-se! Pensou no dia, no passeio, na felicidade da irmã. Seriam momentos como aqueles e tantos outros que teriam de fazer um esforço hercúleo para o ajudar a suportar a partida da irmã. Evitou pensar nisso, não queria ficar triste. Foda-se, haveria tempo para tristezas.
Todo o silêncio foi estilhaçado pelo som ruidoso do secador. Ekaterina estava a secar o cabelo. Mikhail levantou-se da cadeira e procurou o comando da televisão. Ligou-a. Os primeiros canais eram todos falados naquela língua roufenha. Continuou a fazer zapping até surgirem os primeiros canais de notícias falados em inglês. Deixou ficar num qualquer, sentou-se no colchão para ver a novidades e perdeu o interesse no segundo seguinte.
O som irritante do secador sumiu-se. Ekaterina saiu da casa de banho envolta num robe turco e com o cabelo em desalinho depois de ter sido violentamente soprado pelo aparelho. Ela sorriu-lhe numa expressão de “olha lá a minha figura”. Mikhail devolveu-lhe o sorriso, notando que não estava maquilhada, o que lhe dava uma beleza natural divinal.
— Queres aproveitar? — sugeriu, apontando para a divisão donde viera. — Ele assentiu. — Podemos jantar no hotel. O que achas?
— Pode ser.
— Estás bem, Mika?
A resposta foi um beijo na face da irmã.
Mikhail aceitou a sugestão de Ekaterina e foi tomar um duche rápido, lavar-se do cansaço do passeio pelas ruas da cidade. Não queria pensar na doença da irmã, mas o raio do assunto teimava em não lhe sair da mente. Teve vontade de chorar. E chorou.
Ekaterina vestira um vestido de algodão sem mangas, verde garrafa, com um decote circular junto do pescoço e uma bainha curta que lhe realçava as magníficas pernas acentuadas pelos sapatos de salto alto. Voltara a maquilhar-se e penteara o cabelo para um dos lados, prendendo-o com pequenos ganchos. Quando a viu, Mikhail disse:
— Vamos a alguma festa? Pareço um pelintra ao teu lado.
— Não sejas tolo, Mika.
— Estás linda.
— Tu também.
Mikhail encolheu os ombros, a imagem dele não mudava muito, t shirt e calças de ganga ou chinos. Sentou-se na cadeira e calçou as mesmas sapatilhas que o acompanharam ao longo do dia.
O restaurante não tinha muitos hóspedes. Ou era cedo ou estes preferiam sair do hotel e comer noutro lugar. O espaço era acolher, mesas quadradas diante de uma linha de sofás arredondada e complementada no número de lugares por cadeiras elegantes. No centro da sala havia mais mesas posicionadas, maiores ou menores consoante a necessidade e cercadas de cadeiras. As cores variavam entre os castanhos e os brancos. O menu era digno do chef responsável pelo espaço. O serviço de mesa era assegurado por jovens impecavelmente fardadas e a esbanjar simpatia. Uma delas recebeu-os num inglês perfeito e conduziu-os a uma das mesas com sofás, junto das janelas com vista para o Parque das Nações.
Ekaterina sentou-se no sofá, ficando de costas para a janela, dispensando a vista do entardecer. Ainda era de dia. Na véspera, àquela hora, eles ainda voam para Lisboa. Mikhail sentou-se na cadeira, em frente à irmã. Ela pediu uma salada, ele um prato composto por esparguete e camarão.
— Que achaste do nosso primeiro dia, Mika? — questionou, retirando o telemóvel da malinha.
— Quente.
— Só isso? — Ekaterina franziu o rosto com um sorriso torcido. Clicou no ecrã do aparelho e virou-o para o irmão. — Ficámos tão bem.
Mikhail viu umas das fotos de ambos.
— Só por esse sorriso, Eka, já valeu a pena ter vindo.
Duas outras funcionárias aproximaram-se da mesa. Serviram lhes uns aperitivos e petiscos para a espera. Ekaterina abraçou a sala com o olhar e comentou:
— Não há muita gente.
— Isto não é mau. — Mikhail pegara num pedaço de massa crocante e mergulhara-o num molho verde. — É saboroso.
— Se não gostares, peço para te trazerem açúcar.
Mikhail encaixou a piada e ambos sorriram felizes.
Comeram deliciados com as escolhas que tinham feito. O vinho sugerido pela rapariga também mereceu boa nota, um tinto do Douro. Saborearam a refeição trocando comentários acerca do dia um de férias. Não quiseram sobremesa nem café.
A jovem que mais vezes se acercara deles trouxe-lhes a conta. Ekaterina assinou para que fosse adicionada à sua conta no hotel. Muito simpática, convidou-os a subir ao bar no rooftop e desfrutar da vista e de uma bebida. Ekaterina perguntou-lhe o nome, queria deixar um elogio sobre ela, quando terminasse a estadia. Mikhail deixou uma nota de vinte euros por baixo do papel assinado.
A noite amena convidava a desfrutar da esplanada no topo do edifício. Eles sentaram-se numa mesa para dois junto ao parapeito de vidro com vista para o Oceanário e para a Marina. Aqui a clientela era maior. Um balcão atravessava a parede ao fundo, onde trabalhavam dois barmen. Dois rapazes na casa dos vinte anos cuidavam do serviço de mesas. Ekaterina brincava com a palhinha mergulhada numa água tónica com limão, enquanto Mikhail bebia pequenos goles do seu vodka.
Ekaterina atraía os olhares masculinos, mas nada mais que uma olhadela disfarçada para a loura de pernas esguias sentada na companhia de um tipo que parecia saído de um filme de espiões do tempo da antiga União Soviética. Ela era lindíssima, facilmente obteria pretendente se estivesse sozinha e quisesse. Com o irmão tomado como marido, os olhares eram fugazes e fugidios.
Curiosamente, Mikhail arrebatou a atenção de uma mulher sentada no bar e na companhia de uma amiga. A troca de olhares não deixava dúvidas do interesse dela. Mais explícito, só se colocasse umas letras em néon sobre a cabeça a piscar “quero-te”.
— Parece que ganhei uma fã. — partilhou Mikhail.
— Onde?
— Balcão. Segundo banco a contar da esquerda.
Disfarçadamente, Ekaterina voltou-se e viu a mulher exótica de tez morena, cabelo aos caracóis e vestido fresco comprido sem costas. Os seus olhares encontraram-se.
— Ups… Acho que me topou. — disse ela, voltando à posição inicial.
Mikhail voltou a olhar para a mulher. Ela piscou-lhe o olho, borrifando-se para que a loura fosse esposa dele.
— É gira. — sussurrou.
— Não precisas de falar baixinho, Mika. — lembrou-lhe com divertimento. — Não ouço ninguém a falar russo. — Piscou-lhe o olho. — Porque não tentas a sorte?
— Estás parva? Sou casado.
— Ainda não és.
— É como se fosse. — protestou pouco convicto. Os olhos da mulher não descolavam dele. — Além disso, se calhar nem fala inglês.
— Há coisas em que a língua não é importante, Mika.
— Nunca faria isso à Lana.
— Se tu não contares, eu também não conto.
— Qual é a tua, Eka?
Ekaterina riu-se.
— Estou a brincar contigo.
Mikhail retribuiu o sorriso e segurou-lhe a mão com carinho, ao mesmo tempo que olhava para a desconhecida. Foi o suficiente para a outra perceber que ali perderia o seu tempo.
Terminaram as bebidas, vendo mais pessoas a chegar. Levantaram-se e caminharam de braço dado, abandonando o recinto.
— Não podemos ver um canal que se perceba?
— Eu entendo o que estão a dizer. — respondeu Ekaterina sentada na cama e encostada à cabeceira com o lençol pela cintura. Vestira o pijama e a elefanta parecia ver televisão com ela. — Além disso, tu estás aí a trocar mensagens com a tua noiva.
Mikhail estava a seu lado na cama, igualmente com o lençol pela cintura, e com o telemóvel na mão. Abanou a cabeça e não insistiu. Digitou uma despedida com juras de amor para Svetlana que já estava atrasada para dormir.
Ekaterina segurava o comando da televisão e assistia a uma telenovela num dos canais generalistas portugueses. Também havia telenovelas na Rússia, mas ela nunca lhes achara grande piada. E aquela começara a ver para continuar a desfrutar da língua portuguesa.
— Não percebo o que te fascina nisso, Eka.
— É giro. Tu também irias achar engraçado, se percebesses. — Olhou para ele. — Se quiseres, posso fazer-te um resumo.
Mikhail sacudiu um pelo do peito nu e recusou:
— Deixa estar. Dispenso.
Ekaterina continuou a ver as imagens na televisão, enquanto o irmão aproveitou para navegar na Internet com o telemóvel, lendo as notícias.
Ao fim de alguns minutos, Mikhail olhou para o lado e viu que a irmã adormecera. Largou o telemóvel na mesa de cabeceira e virou-se para ela com o intuito de lhe dizer que fossem dormir. Decidiu despertá la com um beijo na bochecha.
Ekaterina reagiu inconsciente ao movimento dele na cama. Por instinto, rodou a cabeça no momento em que a boca dele se aproximava. Em resultado, o beijo na face resultou num beijo no cantinho da boca dela.
— Ui… Desculpa. — pediu ele, cara a cara com ela.
Ekaterina riu-se ensonada. Olhou para ele e, sem dizer nada e sem pensar, beijou-lhe os lábios. Foi um mero toque nos lábios dele.
— Desculpa, Mika! — O rosto envergonhado desviou o olhar. — Agi por impulso. Deu-me saudade dos nossos beijos de miúdos.
— Não tem mal nenhum, Eka. — retorquiu o irmão, encarando aquilo com toda a naturalidade. Riu-se divertido. — E a nossa mãe não está aqui para nos advertir.
Ela retribuiu o sorriso divertido.
— Há mais de vinte anos que não trocávamos um beijinho assim.
— Como te digo, não tem mal nenhum.
Ekaterina franziu o rosto e olhou-o com uma expressão torcida.
— Não sei se a tua noiva pensaria o mesmo.
— A minha noiva também não está aqui.
— Tu és um amor, Mika. A Lana tem muita sorte.
— Não exageres, Eka. Vamos dormir?
A irmã anuiu e ambos deslizaram na cama, estendendo-se no colchão, virados um para o outro.
Mikhail aproximou-se para trocarem um beijo na face como faziam nas despedidas ou, como na noite anterior, de “boas noites”.
— Pode ser um beijo de boa noite do tempo de criança? — pediu ela.
Mikhail sorriu e o beijo suave e rápido foi trocado nos lábios do outro.
— Dorme bem, Eka!
— Dorme bem, Mika!
Ele rodou na cama, esticou o braço para o candeeiro e mergulhou o quarto na escuridão. Cansados pelo primeiro dia de passeio em Lisboa, os irmãos adormeceram de imediato.