Garfield
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Não sei donde vieste, nem qual era o teu passado antes de te cruzares no nosso caminho. Evito pensar numa realidade em que foste abandonado ou em que te perdeste, acreditando antes que desceste do céu directamente para a nossa vida. Se assim não foi, como explicar que surgisses do nada em direcção a nós? Qual a razão para que sem nunca te termos visto passasses a ser presença diária no nosso bairro, na nossa rua, a rondar o nosso prédio? As entidades celestiais não têm de ter forma humana, tu não tinhas, era um gato. E a vida já nos ensinou que os animais são muitas vezes seres mais superiores que os próprios humanos.
Tu apareceste do nada e rondaste-nos durante duas semanas. Andavas aqui na rua e entravas no nosso prédio para ficar a dormir no primeiro tapete que encontravas e fugir na manhã seguinte quando os cães da vizinha vinham passear à rua. Desde o primeiro momento que te chamávamos Garfield, longe de imaginar que um dia seriamos teus.
Nunca esquecerei aquela noite de temporal naquele Outubro de há doze anos. Sem o sabermos, tu já eras parte de nós. Preocupados, quisemos saber onde andavas, se estavas bem, se conseguiras abrigo, se tinhas apanhado a porta do prédio aberta e te refugiaras no tapete das outras noites. Desci à rua, não te vi. Terias partido de forma tão súbita como apareceras? Regressei a casa. Quando te tentávamos encontrar pela janela de casa, vimos-te refugiado diante da porta da garagem de outro prédio, sentado como quem observa a chuva ou simplesmente a vigiar a nossa janela. Eu e a Paula olhámos um para outro sem ser preciso dizer nada, um defeito nosso, sempre soubemos o que o outro pensa.
Voltei a descer à rua. A chuva parara. Caminhei até ti que continuavas sentado a observar. Perguntei-te se querias vir comigo. Tu levantaste-te e caminhaste a meu lado até à tua nova casa, dando início a um caminho que durou quase doze anos.
Foste um companheiro, um amigo. Ficavas colado a nós no sofá, sentavas-te a meu lado enquanto eu trabalhava. Gostavas de te meter entre mim e o computador, talvez alertando na tua sapiência que deveria descansar. Gostavas de fazer de gato de louça diante da televisão. Miavas se não colocava a comida a horas. Deitavas-te no meu colo enquanto jogava playstation. Recebeste os nossos filhos com uma formidável paciência. Adoravas o Sol e a claridade. Tanto tinhas os teus cantinhos solitários, como estacionavas perto de nós, fosse no nosso colo ou encostado. Dormias com a patinha estendida para nos sentir. Adoravas calcar-me a barriga, como se achasses que tinhas de me terraplanar o estômago. Deste-nos inúmeras memórias e recordações que jamais se apagarão.
Gostava de ter jeito para escrever, para conseguir transformar em palavras tudo o que me vai na alma neste momento, um dia depois de teres partido. Tenho a certeza que não se notou, eu fiz por isso, mas atravessei um vale de trevas ontem, no dia em que nos deixaste. Erigi um muro invisível, como se a tua morte não me afectasse, fazendo um esforço para não quebrar, para conseguir acompanhar-te na despedida, mesmo que me custasse falar. Nos teus últimos minutos, segredei-te ao ouvido o quanto gostava de ti, agradeci-te cada momento. Fingi que a tua partida era natural, tentando enganar-me, mentido a mim mesmo, branqueando a dor. “É a vida” repeti várias vezes. Mas, não é a vida, é a morte que nos deixa este vazio. Devo ter parecido insensível, obriguei-me a sorrir, mesmo tendo o coração dilacerado. Quis ser forte, se bem que as emoções não são sinal de fraqueza, apenas de humanidade.
Esta foto é uma despedida tácita, conscientes do momento que ninguém queria perante a irreversibilidade do teu estado. Não percebi que fora fotografo. A responsabilidade da foto é da Paula que te amou tanto quanto eu. Sabíamos que a hora estava a chegar.
Tal como surgiste há doze anos para alegrar, animar e iluminar as nossas vidas, partes de volta para o teu lugar, no céu dos gatos, que será um lugar muito mais bonito que aquele Céu tão apregoado pela imperfeição humana.
Descansa em paz, amigo! E obrigado por nos teres adoptado e deixado fazer parte da tua vida.
Nuno S. Tavares
12/07/2025
Tu apareceste do nada e rondaste-nos durante duas semanas. Andavas aqui na rua e entravas no nosso prédio para ficar a dormir no primeiro tapete que encontravas e fugir na manhã seguinte quando os cães da vizinha vinham passear à rua. Desde o primeiro momento que te chamávamos Garfield, longe de imaginar que um dia seriamos teus.
Nunca esquecerei aquela noite de temporal naquele Outubro de há doze anos. Sem o sabermos, tu já eras parte de nós. Preocupados, quisemos saber onde andavas, se estavas bem, se conseguiras abrigo, se tinhas apanhado a porta do prédio aberta e te refugiaras no tapete das outras noites. Desci à rua, não te vi. Terias partido de forma tão súbita como apareceras? Regressei a casa. Quando te tentávamos encontrar pela janela de casa, vimos-te refugiado diante da porta da garagem de outro prédio, sentado como quem observa a chuva ou simplesmente a vigiar a nossa janela. Eu e a Paula olhámos um para outro sem ser preciso dizer nada, um defeito nosso, sempre soubemos o que o outro pensa.
Voltei a descer à rua. A chuva parara. Caminhei até ti que continuavas sentado a observar. Perguntei-te se querias vir comigo. Tu levantaste-te e caminhaste a meu lado até à tua nova casa, dando início a um caminho que durou quase doze anos.
Foste um companheiro, um amigo. Ficavas colado a nós no sofá, sentavas-te a meu lado enquanto eu trabalhava. Gostavas de te meter entre mim e o computador, talvez alertando na tua sapiência que deveria descansar. Gostavas de fazer de gato de louça diante da televisão. Miavas se não colocava a comida a horas. Deitavas-te no meu colo enquanto jogava playstation. Recebeste os nossos filhos com uma formidável paciência. Adoravas o Sol e a claridade. Tanto tinhas os teus cantinhos solitários, como estacionavas perto de nós, fosse no nosso colo ou encostado. Dormias com a patinha estendida para nos sentir. Adoravas calcar-me a barriga, como se achasses que tinhas de me terraplanar o estômago. Deste-nos inúmeras memórias e recordações que jamais se apagarão.
Gostava de ter jeito para escrever, para conseguir transformar em palavras tudo o que me vai na alma neste momento, um dia depois de teres partido. Tenho a certeza que não se notou, eu fiz por isso, mas atravessei um vale de trevas ontem, no dia em que nos deixaste. Erigi um muro invisível, como se a tua morte não me afectasse, fazendo um esforço para não quebrar, para conseguir acompanhar-te na despedida, mesmo que me custasse falar. Nos teus últimos minutos, segredei-te ao ouvido o quanto gostava de ti, agradeci-te cada momento. Fingi que a tua partida era natural, tentando enganar-me, mentido a mim mesmo, branqueando a dor. “É a vida” repeti várias vezes. Mas, não é a vida, é a morte que nos deixa este vazio. Devo ter parecido insensível, obriguei-me a sorrir, mesmo tendo o coração dilacerado. Quis ser forte, se bem que as emoções não são sinal de fraqueza, apenas de humanidade.
Esta foto é uma despedida tácita, conscientes do momento que ninguém queria perante a irreversibilidade do teu estado. Não percebi que fora fotografo. A responsabilidade da foto é da Paula que te amou tanto quanto eu. Sabíamos que a hora estava a chegar.
Tal como surgiste há doze anos para alegrar, animar e iluminar as nossas vidas, partes de volta para o teu lugar, no céu dos gatos, que será um lugar muito mais bonito que aquele Céu tão apregoado pela imperfeição humana.
Descansa em paz, amigo! E obrigado por nos teres adoptado e deixado fazer parte da tua vida.
Nuno S. Tavares
12/07/2025